A mata ciliar NÃO É inimiga da agricultura!

Parque Nacional do Iguaçu - PR - Córrego
Seria cômico se não fosse trágico. No momento que escrevo este texto, foram definidas alterações no Código Florestal Brasileiro, que na prática impedem a melhoria das condições de nossas águas.  Na verdade, é uma garantia de que a situação dos rios irá piorar.

Uma alteração importante é a exclusão da obrigatoriedade para a recuperação de áreas já degradadas.  Os ruralistas reclamam que não é proibido recuperar.  Que ingenuidade…  Em tantos anos de posse das terras, o que fizeram por sua conta, para melhorar tais espaços?

No Código Florestal anterior, já estava definida a largura mínima de 30 metros de mata ciliar (vegetação nativa obrigatória), em cada lado da margem, para os cursos d’água com até 10 m de largura. Os limites aumentam para rios mais largos. Isso foi mantido no novo Código (apesar de ser pouco cumprido até hoje).

Mas outra alteração proposta diz que, em área de preservação permanente (APP) já consolidada (utilizada), é necessário somente 15 metros de largura de mata ciliar. E é pior: antes, o nível dos rios utilizado no cálculo das APPs era o da época das cheias. Agora, a referência é o nível regular das águas.

Muitos consideram que a largura de 15 metros é suficiente para pequenos córregos. Mas a copa de algumas árvores tem diâmetro bem maior do que isso. Com este limite ridículo, seria suficiente plantar uma fileira de árvores de cada lado da margem, e a lei estaria sendo cumprida.

Só que a mata ciliar precisa de volume (muitas árvores) para que sua eficência seja aceitável.  Além disso, os cursos d’água serão tão mais fracos quanto mais estreita for a mata ciliar. Ou seja, menos mata, menos água.

Claro, deve-se impor limites. Não se pode aumentar demais a largura da vegetação nativa obrigatória, até porque, para pequenos proprietários, a área é exígua e aumentariam as dificuldades para produzir grãos. Mas deveria ser preservado o bom senso.  E pensarmos no futuro que queremos para o Brasil.

Só o plantio de grãos dá dinheiro? Na mata ciliar, não poderiam ser plantadas espécies nativas que produzissem outro tipo de riqueza? Frutos, chás, extratos, óleos, fibras, madeira (sim, o consumo existe e deveria ser permitido, de forma racional), são só alguns exemplos.

Há uma constante pressão dos ruralistas, que não querem recuperar aquilo que foi degradado. Vêem a mata como obstáculo, e não como possibilidade. Pequenos produtores, frequentemente concordam com essas opiniões. Aquele grupo de pressão inclusive utiliza o domínio http://www.codigoflorestal.com – registrado no exterior – para alardear suas ideias.

Aí está a questão central. Para eles, a mata serve, apenas, para dar madeira. De resto, só atrapalha, não é importante para o agronegócio. Reclamam que as cheias são cada vez mais frequentes (no Pantanal matogrossense, por exemplo), mas não as relacionam com a falta de mata ciliar.

Não vêem que é justamente a vegetação nativa das margens que pode amainar a intensidade de qualquer chuva, pois este trecho de mata funciona como uma esponja, absorvendo água quando ela vem em excesso e liberando-a na escassez. Sem falar que uma mata ciliar suficientemente larga irá reter a enorme quantidade de matéria orgânica que é perdida nas lavouras a cada chuva, que resulta no assoreamento dos rios e nos custos elevados para a agricultura.

A mata ciliar de tamanho suficiente traria um só problema importante: a redução (ínfima) da área para plantio. Isso quando ela é utilizada. Muitas vezes não é possível, pois é alagadiça. As vantagens compensariam em larga medida.  Mostro algumas, quem lê o texto poderá lembrar de outras:

– Os rios deixariam de assorear e voltariam a ficar mais profundos e limpos;
– A eutrofização (matéria orgânica em excesso na água) diminuiria, e reduziria a possibilidade de crescimento descontrolado de microorganismos tóxicos (cianobactérias), hoje um problema seríssimo de saúde pública;
– Teríamos água mais potável para beber, aliviando os tratamentos químicos realizados pelas companhias de abastecimento;
– Os rios voltariam a dispor de barrancas sombreadas, importantes criadouros de peixes, que assim poderiam repovoar as águas, até as nascentes;
– Aumentaria a balneabilidade dos rios e lagos e possibilitaria incrementar o turismo local;
– A mata ciliar serviria de abrigo e corredor para diversas espécies de animais que hoje estão desaparecidos de muitas localidades;
– Os agricultores gastariam menos com insumos, pois as chuvas não lavariam tanto a terra, obrigando a adubá-la constantemente (aqui cabem observações, pois os agricultores teriam que intensificar o uso do plantio direto ou do plantio orgânico, além das curvas de nível);
– Todos ganharíamos, não somente alguns.  Nosso futuro seria mais promissor.

Mas olhando friamente, e considerando a pressão de grupos agroeconômicos fortes, cujo interesse é somente o lucro, estamos muito mal.

Há um costume perverso, espalhado pelo Brasil, de plantar uma fileira de árvores ou arbustos nas margens dos rios. Aparentemente, o objetivo é dar a impressão, para quem olha de longe, de que há muita mata ciliar. A enganação não poderia ser maior. Fica difícil esconder a realidade ao mudarmos o ponto de vista (literalmente).

Através das imagens de satélite, podemos olhar a superfície terrestre como um conjunto, facilitando comparações. Há diversos trechos bem cuidados pelo país, mas o que prevalece, junto aos cursos d’água, são as áreas para plantio ou desmatadas, um descalabro. Há áreas imensas com vegetação rasteira.  Algumas vezes, parece que o local foi somente desmatado e abandonado.  Desmatar é fácil, recuperar é mais demorado e custoso.  Além da falta de experiência (e vontade) em repor a vegetação.  Esta é a briga dos ruralistas.

As imagens a seguir foram extraídas do Google Earth, de modo aleatório. Optei por manter uma escala mais ou menos uniforme, ao redor de 100 metros. Assim, a régua no canto inferior esquerdo da imagem dá uma ideia do tamanho do rio e da mata ciliar. As fotos são, respectivamente, de Corumbá-GO, Ibirubá-RS, Novo Jardim-TO, Tietê-SP e Trombudo Central-SC. Corumbá teve que ficar com a escala mais ampla (141m), pois o rio é enorme. Não consegui imagens com definição aceitável da região Norte do país, talvez daqui a algum tempo o banco de dados melhore.  A foto do início do texto é um dos inúmeros córregos ao redor do Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu, no Paraná.  De todas regiões, a mais intensamente utilizada é a de Santa Catarina, apesar de serem vistos  pequenos trechos de mata ciliar.  Aquela cidade (Trombudo Central) é próxima a Rio do Sul, um grande pólo industrial.

Pode-se notar claramente que as áreas necessárias para mata ciliar não acabarão com a agricultura, pois além dos muitos trechos sem utilização, a área ocupada pelas lavouras é imensamente maior que a dos rios. Também é possível estimar o tamanho da copa das árvores com a régua. As figuras falam por si. Clicando nelas, poderão ser ampliadas.

Como parâmetro, seguem as medidas definidas para a mata ciliar, conforme a largura do rio.  Comparando com as fotos, pode-se imaginar até que ponto chega o estrago atual.

Largura do rio –> Mata nativa de cada lado da margem
– Até 10 metros –> 30 ou 15 metros (ver texto)
– Maior que 10 até 50 metros  –>  50 metros
– Maior que 50 até 200 metros  –> 100 metros
– Maior que 200 até 600 metros –>  200 metros
– Maior que 600 metros –>  500 metros

fonte: http://www.senado.gov.br/noticias/agencia/infos/info_novo_codigo/novo_codigo.html

Há ainda outra questão, que poderá transformar-se num artigo, pois tem muito pano pra manga. É o costume, muitíssimo frequente, da lavoura alcançar a margem das estradas.  Os produtores utilizam terras públicas (as faixas de domínio e áreas adjacentes), mas não pagam ao governo por ganharem dinheiro com elas. Ocupam todo o espaço disponível, em nome da sustentabilidade do negócio. E não falam em sustentabilidade da natureza, que irá cobrar a dívida, com juros, cedo ou tarde.

Corumbá - GO

Ibirubá - RS

Novo Jardim - TO Tietê - SP

Trombudo Central - SC

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Quer produzir água potável? Plante árvores!

As árvores, geralmente tem seu funcionamento mal interpretado na cultura geral.  Muitos falam que as florestas são o pulmão do mundo, o que não é bem verdade.

José Lutzenberger, saudoso ecologista gaúcho, já comentava que a maior parte do oxigênio gerado na terra vem das algas marinhas.  Paleoclimatologistas descobriram que o nível de oxigênio na atmosfera é aproximadamente o mesmo há pelo menos 500 milhões de anos.  Neste longo período de tempo, com certeza ocorreram diversas modificações importantes no clima, como as eras glaciais, quando há poucas árvores, o que minimiza a sua importância na formação de oxigênio.  Elas geram este gás, mas o mais importante delas não é isto.

Todos sabemos que é sempre mais fresco debaixo de uma árvore do que de um toldo ou uma marquise.  O motivo para isto ocorrer é por causa da transpiração das plantas, que evaporam água pelas folhas.  Tudo acontece de modo invisível, mas pode ser comprovado com uma experiência simples: é só cobrir, com saco plástico transparente, um galho de qualquer planta, que tenha folhas sãs.  Em poucas horas, serão formadas várias gotículas de água no interior da embalagem.  Se tiver sol e calor, será bem mais rápido.  Como isso acontece?

Uma árvore funciona, basicamente, como uma grande bomba d’água.  As raízes absorvem a água, que entra no metabolismo da planta.  O excesso é levado para as folhas, que a liberam para a atmosfera pela transpiração.    A transpiração é enorme, há árvores de grande porte que dissipam diariamente no ar mais de 400 litros de água, e de modo bem mais eficaz que os oceanos.  Essencialmente, a evaporação da água causa a diminuição da temperatura do ar, o que faz das árvores poderosos aparelhos de AR CONDICIONADO.  Taí porque gostamos de sombra e água fresca…

Animação - mostra o ciclo de água na mata

Animação - mostra o ciclo de água na mata

Animação sobre o ciclo da água

Para a árvore viver, é necessário ter água de onde bombear.  Ela vem do solo, que funciona como uma esponja encharcada.  Mas para a terra tornar-se altamente absorvente e funcionar como esponja, há a necessidade da mata, composta por várias árvores próximas.  As folhas que caem das árvores, formam um tapete, que mantém a umidade do solo e abre seus poros, facilitando o trabalho de prospecção das raízes e de pequenos animais, como as minhocas.

Para fechar o ciclo, as nuvens, formadas por evaporações de vários lugares (solo, árvores, rios, lagos e oceanos), caem em forma de chuva e molham o solo.  Uma parte desta água a planta utiliza para crescer e o que ela não absorve segue para o subsolo, através dos sulcos abertos pelas raízes.  Assim é alimentado o lençol freático, fazendo brotar veios d’água nos lugares mais baixos.

Portanto, se alguém plantar árvores no topo de um morro, muito provavelmente nascerão, cedo ou tarde, olhos d’água nas baixadas, que se tornarão mais permanentes quanto maior e mais fechada for a mata lá do alto.

O contrário também é verdadeiro:  se retirarem a mata do alto das coxilhas, certamente aquelas vertentes vigorosas, que “nunca secam”, secarão ou ficarão diminuídas.  E os córregos que passam por perto diminuirão sua vazão.

Eu fui testemunha de um caso semelhante, na casa de meus avós.  A terra era pequena e eles pensaram em cortar um capão no alto do morro para aumentar a área de plantio.  Havia uma vertente na baixada que fornecia água para a casa.  Após o corte das árvores, aquele olho d’água reduziu drasticamente o fluxo e secou no verão.  Meus avós foram obrigados a puxar água de outra vertente, mais fraca e distante.  Foi uma dura lição.

Por isso, eu insisto tanto nesta tecla:  se queremos água, temos de querer mais árvores.  Sem árvores, não há água.  Plante água, ou árvores, sempre que puder!

Veja também:
Plantar água 1Plantar água 2
Guarda-chuva verde
IESAMBI – Instituto de Educação Socioambiental
Relações hídricas da planta
Evapotranspiração
Ciclo da água

Precisamos de mais, muito mais árvores!

03/01/2012 1 comentário

Uma rua bem arborizada!

Quem anda por qualquer cidade brasileira sente que o sol está escaldante, especialmente no verão.

E todos sabemos que a sombra das árvores é sempre mais fresca.  Elas não são o pulmão, são o AR CONDICIONADO do planeta!  Os pulmões do planeta são as algas marinhas, há milênios!

Se houvessem mais árvores nas calçadas, teríamos cidades mais frescas, mais agradáveis, mais perfumadas.  E teríamos mais água.  E talvez gostássemos mais do Brasil.

Apesar disso, muitas cidades só tem calçadas e asfalto, terríveis para andar com sol forte.  Às vezes, têm uma praça onde os frequentadores disputam os bancos sombreados.

Poucos sabem que as prefeituras em geral mantém um horto florestal com mudas adequadas à região urbana.  E que podem encontrar funcionários interessados em árvores e bons de conversa.

Muitos não querem árvores para não atrapalhar o comércio.  Mas quando vão estacionar o seu carro, querem um lugar que não pegue sol…

Talvez seja hora de começar a praticar uma outra forma de viver:  faça como digo, faça como faço.

Atentamente,